Coincidência? Três clubes do G4 do Brasileirão utilizam grama sintética

A utilização da grama sintética ainda é muito debatida entre os clubes. Enquanto alguns são árduos defensores, outros não querem nem ver de perto. Contudo, parece que está dando resultado ou será apenas coincidência? Das equipes que ocupam o G4 do Campeonato Brasileiro-2024, três atuam em campo sintético.

Botafogo (2º), Palmeiras (3º) e Athletico-PR (4º) são os clubes que adotaram e mandam seus jogos em gramados artificiais. Por sua vez, o líder Flamengo atua no Maracanã, onde a grama não é 100% sintética. A diferença do primeiro para o quarto colocado é de apenas quatro pontos.

Debate entre clubes e CBF

Há menos de três meses, houve uma reunião virtual dos clubes com a CBF, e a pauta gramados sintéticos voltou ao debate. Com apenas Athletico, Botafogo e Palmeiras sem gramados naturais, os clubes aumentaram o tom para veto no futuro deste tipo de campo.

A CBF convocou a Comissão de Médicos para analisar o tema com a Comissão Nacional de Clubes – eleita por Atlético-GO, Fluminense, Fortaleza, Internacional e São Paulo na Série A – e também prometeu contratar consultoria internacional para um estudo mais aprofundado do caso. Apesar da pesquisa levantada, não houve análise conclusiva.

Citou-se o exemplo do futebol na Arábia Saudita, onde se constatou mais lesões em gramados naturais. Outro, produzido por finlandês que coletou dados pelo mundo, não indicava alterações importantes, com até menos em campos sintéticos. Ainda um outro relatório tratava de mais lesões em tornozelo e no pé, mas no restante dos casos números bem semelhantes.

Críticas e até jogador pediu para não jogar

O mais crítico entre os presidentes, Mário Bittencourt, do Fluminense, já deixou claro que não gosta de gramado sintético.

“Dizem que sintético diminui o custo. Mas, se você tem um clube de futebol e não consegue manter um campo de grama, você não pode ter um clube. Se não vira casa de show. Tem gente que prefere fazer cinco shows. E tudo bem. Mas eu prefiro ganhar títulos”, provocou Mário Bittencourt em entrevista coletiva em janeiro.

Além disso, o caso mais emblemático foi o de Luis Suárez, craque do Campeonato Brasileiro de 2023. O uruguaio de 37 anos se recusou a jogar em gramados sintéticos por conta de lesões. Hoje no Inter Miami, da MLS, Luisito se reencontrou com Lionel Messi, que exigiu em seu contrato com o clube norte-americano uma cláusula que garanta que ele não jogue em campos de grama artificial.

Diferenças de grama sintética

Apesar de serem artificiais, os gramados não são iguais. Os sistemas utilizados estão dentre os oito modelos chancelados pela Fifa. A principal diferença se dá no tipo de preenchimento escolhido.

O Athletico-PR mudou o gramado em 2016, sendo o primeiro da elite do futebol a mandar seus jogos num campo sintético. O Furacão adota o ‘schockpad’, camada mais interna que funciona como uma espécie de colchonete. Além disso, coloca fibras de poletileno padrão para simular a grama e fibras de coco.

No Nilton Santos, o Botafogo utiliza um material mais moderno e com tecnologia mais avançada. O clube adotou o fio de poletileno misto, que reduz os arranhões e inovou com a cortiça, que retém menos calor, dá mais estabilidade na corrida e tem aspecto mais macio, além também do schockpad’.

Por fim, o Palmeiras mudou o gramado em 2020, sobretudo para receber turnês nacionais e internacionais e continuar apto à prática do futebol. O Alviverde adota o mesmo material do Athletico-PR, mas teve um problema no início do ano. O técnico Abel Ferreira criticou o estado do campo. O composto sintético utilizado no preenchimento derreteu por causa do calor e precisou ser substituído.

Gramado Sintético? Lesão de Vitor Roque esquenta debate sobre seu uso no futebol

A lesão do centroavante Vitor Roque, do Athletico Paranaense, esquentou o eterno debate sobre o uso da grama sintética no futebol. O jogador teve uma lesão ligamentar no tornozelo direito, sem necessidade de cirurgia. A previsão de recuperação é de 30 a 40 dias.

Vitor Roque levou um carrinho do zagueiro Nico Hernández, ex-Athletico Paranaense, na vitória do Furacão por 2 a 1 sobre o Internacional, na última quinta-feira, na Ligga Arena, que usa grama sintética.

jornalista Victor Canedo publicou o vídeo do lance no Twitter e questionou. “Não sou especialista em sintético ou tampouco advogado de gramado natural ruim, mas me parece que o piso teve alguma influência na lesão do Vitor Roque”, disse. Vários torcedores criticaram a postagem e afirmaram que a lesão não tem relação com o gramado, e foi provocada pela imprudência do jogador do Internacional.

Antes da lesão de Vitor Roque, o diretor de futebol do Botafogo, André Mazzuco, foi perguntado sobre a grama sintética durante entrevista para o PodCast O Outro Lado da Bola, no Estúdio Bem Paraná. Ele afirmou que não há estudo comprovado sobre lesões relacionadas à grama sintética e explicou como foi a decisão do clube carioca em adotar esse piso. “Nosso campo ficou maravilhoso, os jogadores amam”, disse. Clique aqui para ver.

perfil DNA do Esporte apresentou um levantamento afirmando que as gramas sintéticas provocam mais lesões. “Fizemos um levantamento das lesões ligamentares que aconteceram nesse Brasileirão de 2023, consideramos apenas lesões de grau 02 e 03 – mais sérias. O estudo indica uma probabilidade maior de lesões em gramados artificiais, a quantidade em campos de grama sintética foi 4,05 vezes maior do que as lesões sofridas em grama natural”, afirmou o DNA do Esporte. “O tema voltou à pauta depois do lance de Vitor Roque, o jogador teve lesão constatada após ficar com o pé preso no gramado da Ligga Arena – apesar de considerarmos a entrada de Nico Hernandez desproporcional, o pé que fica preso ao gramado é o direito, e não o esquerdo, causando assim a lesão ligamentar no tornozelo”, declarou.

Segundo os dados desse levantamento, foram 1,62 lesões a cada 10 jogos em gramados artificiais. E
0,40 lesões a cada 10 jogos em gramados naturais.

“Sabemos que a amostra é pequena referente à quantidade de jogos que acontecem em cada tipo de gramado, mas o estudo mostra que no ano de 2023, em específico, as lesões sérias acontecem com maior frequência em gramados artificiais. Em um segundo momento, em um novo comparativo, considerando todas as lesões ligamentares sofridas por jogadores de clubes Brasileiros no ano de 2023 (não apenas no Campeonato Brasileiro), a diferença é um pouco menor, a quantidade de lesões em gramados sintéticos foi de 3,00 vezes maior – usamos para essa simulação, o índice de 85% dos jogos em gramados naturais”, disse o perfil do DNA do Esporte.

Exterior
A Holanda decidiu proibir gramados 100% sintéticos na primeira divisão nacional a partir de 2025. Só serão permitidos os naturais e os híbridos (mistura com artificila).

Nos Estados Unidos, em outra modalidade, o futebol americano, a associação dos jogadores (NFL Players Association) pediu o fim da grama sintética.

Grama sintética
A Fifa permite o uso de grama sintética desde 2001. O Athletico Paranaense passou a usar esse piso na Arena da Baixada em 2016. Em seguida, o Palmeiras adotou no Allianz Parque. O Botafogo colocou esse piso artificial em 2023, no Engenhão.